Detetive Linhares

Escritor de estórias Pulp/Noir.

BREVE OBITUÁRIO COTIDIANO – parte 7 de 7

Tábua de Esmeralda

Tábua de Esmeralda

Esfrego os olhos. Não consigo enxergar direito. Está tudo meio embaralhado por causa da chuva que começa a cair.

– Que estranho. Só tá chovendo aqui no Colégio Estadual.

Muito estranho. A chuva só cai na frente da escola. Muitas nuvens escuras cobrem o lugar. Vez ou outra alguns raios cortam o céu em direção ao Planetário.

– Cacete! Acho que tá rolando uma festinha e eu tô aqui fora.

Largo o Inércia na esquina do Colégio e saio correndo. Corro o máximo que posso. Pulo o muro. Enrosco o pé e

PLAW!

Voo de costas no chão. Rolo na grama e contabilizo o prejuízo.

– Céu escuro. Prédios. Chuva. Todo molhado. A tampa do dedão. Mão direita ralada.

Continuo correndo cada vez mais rápido. A chuva embaça mais ainda a minha visão e já estou com bastante dificuldade pra enxergar. Mas não paro de correr.

– Sou Detetive! Essas Havaianas não podem me atrapalhar.

Paro na frente da entrada do Planetário e reparo que eu nunca tinha reparado que ele era gigante. A porta deve ter uns dez metros de altura e uns sete de largura e tem um aspecto fantasmagórico. Fico ali um tempo.

– Que coceira na mão! Você tá aí, Cramunha?”

Nada.

Pergunto de novo.

– Psiu. Cadê você, Cramunha?”

Silêncio.

– Mas que Diabo! Isso é hora pra você sumir?!

– Ei, Detetive.

A voz do Cramunha vindo de dentro do Planetário.

– Eba! Pelo menos não tô sozinho.

Entro.

Sabe o laboratório do cara que inventou o Frankenstein? É por aí. O negócio aqui dentro tá muito esquisito. Luzes e raios e coisas verdes escorrendo pelas paredes e máquinas estranhas de tortura e pirotecnia de primeira. Coisa de gente premiada. Festa rave internacional.

– Cramunha, não tô te vendo. Cadê você, piá?

– Vai vindo. Tô aqui no fundo.

Continuo caminhando. Gosmas no chão. Isso aqui parece filme de alienígena. Daqui a pouco eu trombo na Sigourney Weaver.

Um vulto lá no fundo.

– E aí, Cramunha, cadê a festinha?

O cara não parece o Diabo. Ele me lembra mais o H.R. Giger.

– Ei, que você tá fazendo aqui, Giger?

– Quem é você?

– Poxa vida, não lembra de mim? Detetive Linhares. Tô procurando um

PLAM!

Uma porta se abre do meu lado direito e uns caras pulam em cima de mim com cordas e começam a me amarrar.

– Ei! Quem são vocês? Me larguem seus merdas! Cramunhaaa!!!

– Putz! . Agora você foi muito cagão. O que vão pensar de você?

A voz do Cramunha sai do meio das sombras ao fundo do Planetário.

Barulho de passos. Ele vem devagar.

Enquanto isso eu sou amarrado por uns caras muito monstruosos na maca do Dr. Frankenstein.

– A rapaziada aqui é barra pesada, hein, Seu Giger?!

– Não é nada pessoal, Detetive, mas

Um par de pernas sai das sombras. Pernas torneadas por mãos hábeis. Delícia cremosa. Depois das pernas começa a aparecer um vestido vermelho.

– A moça gostosa do poodle esmeralda! Ei, moça!

– acho que precisamos

E de repente era o H.R. Giger de novo.

– ter uma conversinha

Ôrra! O cara é uma espécie de mágico.

– pra eu te explicar como

Madame Toussaud!?!?

– as coisas funcionam

CRAMUNHA!

– por aqui.

– Ôrra, Cramunha! Demais esse seu truque, hein!

Por um instante eu solto uma risada. Aí eu me toco que o trouxa sou eu. Aí não rio mais. Me sinto meio traído. Meu melhor amigo armou essa pra mim e eu nem sei porque. O que o Diabo iria querer imitando as pessoas por ai? Só se tivesse bancando a louca do 71.

– Eu não armei nada pra você, Detetive. Eu só quero impedir uma outra pessoa de tomar o meu lugar. E por isso eu preciso de você.

– Como assim?

Uma das criaturas frankenstônicas começa a reclinar a maca pra que eu fique quase na vertical.

– Opa. Valeu, amigo. Que tal um cafezinho agora, Cramunha?

– Os planetas estão quase no alinhamento.

– Falou comigo?

– A lua vai refletir o sol no exato momento em que os planetas estiverem alinhados. Essa luz viajará até aqui neste planetário. Se as esmeraldas estiverem posicionadas naqueles pedestais produzirão uma luz verde e, aparentemente, mais nada. Porém, se alguém, um ser humano, por exemplo, desses aí, tipo você, se colocar à frente dessa luz, ganhará poderes extraordinários, tipo, imortalidade, super-força, visão noturna

– Tipo vampiro?!

– Exato! Por isso eu quero pegar esse cara antes que ele faça isso.

– Igual àquele rapaz da Romênia?

O Cramunha começa a se aproximar de mim. Vem em minha direção me olhando nos olhos com cara de maníaco.

– Isso mesmo, Detetive. Como aquele idiota que tentou passar a perna em mim há um tempo atrás na Romênia.

– Ah, tá. Entendi. Quer dizer então que vai vir um piá lóque aí no Planetário e vai  entrar sem bater dizendo que é o novo espertalhão do pedaço e que quer mandar na porra toda e vai dar uns tabefe na gente e sair como quem vai no Bar do Tony e pede um café e quer que o garçom pingue o adoçante pra ele!!!??? Ah, então, é isso?!?!

Ele chega bem pertinho de mim. Acho que ele vai me dar um beijo.

O Diabo estende a mão para o lado e um dos seus funcionários lhe entrega uma pinça. Na verdade é um daqueles boticões de dentista. Eu não consigo me mexer então fico apenas olhando ele enfiar o troço nos meus olhos e arranca-los fora.

Logo em seguida um dos seus monstrengos vem até mim e recoloca um outro par de olhos no lugar dos antigos. Fico cego por um momento. Ele me aproxima um espelho. Não senti nada. Abro os olhos devagar.

– Humm… Nada mal. Sempre imaginei como eu ficaria com os olhos castanhos.

Um dos capangas do Diabo me solta. Escorrego pela maca até o chão.

– E aê, Cramunha. E o que acontece agora?

Ele está do outro lado do Planetário com a cabeça de um cara na mão. Tem um corpo caído no chão.

– Porra, Cramunha! Perdi o melhor!

– Essa aberração não vai mais me incomodar.

– Legal.

A gosma no chão secou e já não tem mais tantos raios como tinha antes de eu ficar cegueta. Os monstrinhos do Cramunhão já terminaram de limpar o barraco e estão indo embora. O céu está se abrindo depois de uma tempestade concentrada. Algumas estrelas. Lua nova.

– Já está amanhecendo, Detetive. Acho melhor irmos embora.

– Ok. Mas, posso fazer uma perguntinha?

– Sim.

– E o poodle?

fim

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BREVE OBITUÁRIO COTIDIANO – parte 6 de 7

Planetário do Colégio Estadual do Paraná em quatro dias

É o que está escrito no bilhete do Cramunha.

– Se em quatro dias eu vou encontrar o cachorro, mais o safado que o roubou, as esmeraldas, e tudo no mesmo lugar… porque eu tô me preocupando em procurar todo mundo hoje? Eles vão estar todos no mesmo lugar. Com um só tiro eu posso pegar todos esses malandrinhos. Aaahhh! Farei algo mais interessante nesses dias.

Segunda feira. Começo de semana. Cato meu chapéu de detetive e a minha capa de detetive. Acendo um cigarro. Vou descer pra ver os camelôs os velhos e as putas da Praça Osório e tomar um café no Bar do Tony. Entro no elevador e um tiozinho entra comigo.

– Bom dia, menino.

Menino?

– Como vão as coisas?

– Indo.

Agora o tio vai começar aquele papo de elevador.

– Tá quente, né?

– Uhum.

– Deve chover no final da tarde, né?

Será?

– Uhum.

– Por isso eu sempre levo meu guarda-chuva.

– Viu, só?

– O que?

– O que o que?

– Você me perguntou.

– Perguntei o que?

– Se eu tinha visto.

Tsca! Cala a boca velho!

– Tá bom.

– Tá bom, o que?!

– Eu calo a boca.

Silêncio.

Alguns segundos depois.

Vou testar esse velho.

– Pode começar.

– Começar o que?

– O teste. Adoro pegadinhas.

– Você tá ouvindo o que eu tô pensando, não tá?!

– Não.

– Então?

– Então, o que?

– Você me ouve pensando!

– Não. Você fala muito. Só isso.

– Mas

– E é muito mal educado. Fala muito palavrão.

Cu.

– O que eu pensei agora?

– Não vou falar.

– Então, você não sabe.

– Sei sim.

– Então fala.

– É palavrão.

Alameda Cabral com Cruz Machado.

– É pra onde você tá indo.

– Como assim?

– Bar do Tony.

???

– Você vai pedir um café preto num copo de vidro americano como sempre faz

Ô.o

– e um pão com manteiga que não vai comer inteiro porque um mendigo vai te pedir uma mordida e como você tem nojo de dividir as coisas você vai dar inteiro e não vai aceitar outro que o Tony vai te oferecer

Ôrra!

– vai levantar do balcão e ir ao banheiro lavar o rosto porque está muito quente e você odeia calor e aí você levanta o rosto e lembra de que quando você era criança que você adorava ir para a praia com a sua família e com os amigos da sua família pra ficar o dia inteiro na areia feito milanesa e ficar torrado feito camarão então você se enxuga dá tchau pro Tony e sai do bar e um menino te aborda pedindo trocados e você diz não e ele te olha nos olhos e sorri e você entende algo obscuro dentro de si como se lá no fundo um uma fossa se enchesse de água e então você pisca e o menino já sumiu e você caminha em direção à rua quinze e os semáforos não funcionam e está mais quente que o habitual e você tira o casaco e não vê que o deixa pendurado em uma lata de lixo e sua única vontade é a de se livrar desse calor maldito então você pensa que o Cramunha pode te salvar mas nessa hora você já está sem camisa sem calça sem nada e esqueceu de tudo e há uma cor que escorre pelas frestas do seu plano de visão e fica tudo manchado turvo e você corre em direção ao chafariz da Praça Osório onde uma piazada nada pra se livrar do calor e você se joga na água com eles e vocês brincam por horas como se o tempo tivesse parado e as pessoas passam e olham e não param pra ver o que acontece porque não importa e você diz que nada mais importa e uma voz também diz que nada mais importa e você levanta e fica de pé e a voz diz que nada mais importa e você levanta a cabeça e uma figura na janela do seu escritório diz pra você que nada mais importa e é o diabo lhe dizendo coisas e rindo e no fim ele diz que nada do que você faz importa na vida de ninguém detetive

detetive

detetive

Abro os olhos e a tia da limpeza do prédio bate nas minhas pernas com uma vassoura. Estou em transe. Ela me olha e gesticula a boca. Saia do elevador. Escuto lá no fundo. Saia do elevador. Senhor Linhares. O senhor está deitado no elevador. Décimo terceiro andar. O prédio não tem décimo terceiro andar. Andar treze com a luzinha acessa. Elevador parado. A tiazinha agora tem chifres e ri.

Levanto.

Esfrego os olhos.

Ninguém.

Olho pra fora do elevador e lá está a porta do escritório aberta.

Estou nu no elevador. Não tem ninguém por perto.

Estou nu e molhado.

Corro pra dentro do escritório. Ligo o rádio.

Boa noite Curitiba. Vinte e duas horas e quarenta e três minutos.

Muito calor nessa noite gostosa de sexta.

O fim de semana será de praia e muito

Merda!

Visto a primeira roupa que encontro e saio correndo pro Planetário. Calça jeans e camiseta florida e havaianas e um bonezinho mequetrefe que chegou esses dias pelo correio junto com uma canetinha e um monte de propaganda eleitoral. Monto no Inércia e saio voando pro Colégio Estadual.

De longe já dá pra ver a movimentação no céu.

(continua)

BREVE OBITUÁRIO COTIDIANO – parte 5 de 7

Ilustração de Fabiano Vianna

Ilustração de Fabiano Vianna

Conheci Madame Tussaud por acaso três anos atrás. Tinha sido internado por causa de um transtorno de personalidade. Uma paranoia que se instalou na minha cabeça. Por um tempo eu fui um justiceiro. Um tipo de açougueiro assassino. E eu acreditava que toda a escória do mundo deveria morrer pelas minhas mãos. A história é longa e não interessa. O que importa é que passei um tempo no pinel do Hauer com o Dr. Nascimento e as coisas se esclareceram. Aí um dia eu estava subindo pro escritório e eu e Madame tivemos aquele típico trombão de corredor. Ela deixou cair uma sacola do Mercadorama com frutas e eu alguns livros que eu recém havia comprado num sebo. Nos olhamos por alguns segundos.

– Seu piá de merda! Você está cego? Vê se olha por onde anda!

– Calma, minha senhora…

– Calma?! Eu estou muito calma!

Nota-se.

Pensei.

– O quê? O que você disse?

– Nada.

– Tira essa mão suja das minhas compras! Não precisa me ajudar! Eu só estou velha, não estou morta!

Pra mim cê tá parecendo um zumbi.

Pensei de novo.

– Piá desaforado!

Ela disse emendando uma bolsada no meu braço.

– Por acaso, a senhora lê pensamento?

Velha do caralho!

Pensei pra ver se ela lê minha cabeça.

– Quem é velha, hein?!

Aí discussão durou mais uns quinze minutos. No fim ela recolheu suas frutas e seguiu seu rumo. Eu fiquei com uma pulga atrás da orelha.

– Como ela sabia o que eu tava pensando?

No outro dia fui até seu apartamento. Sala 111.

MADAME TUSSAUD
Cartomante, Vidente, Taróloga, Esotérica, Umbandista, Cigana e Feiticeira
Faço qualquer tipo de trabalho
(41) XXXX-XXXX

Isso foi um pouco depois de alugar o escritório aqui no Edifício Asa. 13º andar. Sala 1301. Eu tinha pouco mais de trinta anos. Época difícil. Dívidas. Jogos. Prostituição. Drogas. E um arsenal de coisas que me fizeram conhecer o tal do fundo do poço. Nesse momento Madame Tussaud foi muito importante. Ela me ajudou a conhecer um mundo novo. Mais leve. Ensinou-me a seguir meus passos em direção a um futuro melhor. Foi muito bom pra mim. Agora deixa eu aproveitar esse momento íntimo e descontraído entre nós para umas breves palavras de conforto.

– Se você está precisando de serviços de inteligência ou busca e captura. Se você perdeu um objeto de estima ou um parente querido está sumido. Se você não sabe mais como recuperar aquele dinheiro emprestado há tanto tempo. Se seu marido ou esposa está te traindo e você precisa urgente de fotos que o/a incriminem. Se você precisa de ajuda eu só tenho uma coisa pra lhe dizer. Pare o que você está fazendo e venha agora aqui na Praça Osório e entre no Edifício Asa. Pegue o elevador da direita e suba até o décimo terceiro andar e vire à esquerda e olhe para a porta que está à sua frente. Respire fundo. Tenha fé. Pode entrar sem bater. EU estarei à sua espera!

– Caralho, Linhares, cada dia que passa você fica mais estranho e burro.

O Diabo entra no escritório.

– Acorda. Tenho boas notícias pra você.

Abro os olhos devagar e sento no sofá. Deve estar uns 30 graus lá fora. Aqui dentro 80.

Ligo o ventilador.

– Ontem, depois que você se foi, eu e Madame tivemos uma ótima conversa.

– Eu notei. Café?

– Não, obrigado. Ficamos mais algumas horas conversando e ela me disse que é muito provável que a dona do Poodle esteja tentando fazer um pacto com o Diabo.

– E imagino que você é um cara mais feliz por causa disso.

– Vai rolar uma conjunção da Lua com Plutão mais Saturno e o Sol formando uma linha direta com Curitiba. Mais precisamente com o planetário do Colégio Estadual.

– E?

– E isso acontecerá em quatro dias.

– E o que você quer que eu faça? Que eu entre no planetário mate todo mundo e pegue o dog?

– É uma ideia.

– Cigarro?

– Você sabe que eu não fumo.

– Sempre há uma primeira vez.

– O ritual diz que se duas esmeraldas forem colocadas entre a linha que vem dos planetas e o coração de alguém, este alguém terá poderes sobre os mortos e vida eterna.

– E você vai deixar isso acontecer?

– Não tô muito afim. Da última vez tivemos problemas com o cara que fez o ritual.

– E quem foi o cara?

– Não importa.

– Claro que importa.

– Não.

– Ah, vai! Fiquei curioso.

– Não.

– Fala aê, Cramunha! Tá com medinho, tá?

– Ô puta que pariu! Você conhece as histórias dos vampiros, né?

– Lógico. Caim e Abel. Lilith. A expulsão do Paraíso e

– Tá! Eu sei de tudo isso.

– Desculpa. Me empolgo.

– Lembra do Drácula?

– O do filme?

– O da Transilvânia?

– Que é o mesmo do filme! Do Bram Stoker, porra!

O diabo para e fica puto. Detesto quando ele fica puto. O humor dele fica péssimo.

Ele estala os dedos e uma caneta vermelha aparece em suas mãos.

– Há! Adoro quando você faz esses truques.

Ele escreve alguma coisa num pedaço de papel.

Deixa em cima da mesa.

PUF!

E vai embora.

(continua)

BREVE OBITUÁRIO COTIDIANO – parte 4 de 7

Desço pra fumar um cigarro e respirar um pouco do ar da rua. Olho o relógio da praça. Nove graus. Uma e meia da manhã.

– Não tô nem um pouco afim de voltar pro escritório. Que cê acha, Cramunha?

– Você devia ir ao primeiro andar ainda hoje. Aproveite que as informações ainda estão frescas.

– Uma visitinha pra Dona Tussaud a essa hora pode até arrancar um sorriso da véia.

– Quem sabe ela não resolve te dar uns beijos.

– Cala a boca. Ela deve ter idade pra ser tua mãe.

– Mais respeito com a minha mãezinha.

O Diabo faz o sinal da cruz.

– Que Deus a tenha.

Subimos pela escada. Sala 111. Primeiro andar no fundo do corredor. Dá entrada do andar já dá pra sentir o cheiro de incenso. Fedorento.

– Quem será que inventou esse cheiro da porra?

– Desde a antiguidade que o incenso é usado em rituais. Eu lembro que tinha uns rapazes na região que hoje vocês conhecem como Oriente Médio, na fronteira com a Etiópia, que retiravam a essência de uma planta chamada Olíbano. Tinha um cheiro agradável, mas se perdeu o costume de queimar o negócio por conta dos católicos.

– Esses católicos tem essa péssima mania de proibir.

– Faz parte do jogo, Detetive.

Paramos em frente a porta.

– Madeira da Índia.

– E?

– E nada, Detetive! Bata na porta de uma vez!”

TOC

– Entre, Detetive!

Uma voz velha e rouca.

– Limpem os pés! Há sandálias no canto esquerdo da porta.

– Limpem, ela disse?

Olho pro lado e o Cramunha não está mais ali.

Como ela sabe que não estou sozinho?

Entro.

Uma espécie de antessala. Seria uma copa se fosse uma dessas casas onde se encontram casais com filhos e cachorros. Aqui é uma antessala de castelo medieval de filme. Velas. Incensos. Pinturas nas paredes. Muitas flores e um tapete de couro de crocodilo com a bocarra virada pra quem entra. Boto uma sandália dessas estilo japonesa e vou entrando. O tapete rosna pra mim. Atravesso uma porta decorada com heras e entro no que me parece ser a sala principal do apartamento. Alguns bichos caminham pelo lugar. Uma iguana está parada em cima da mesa e me olha. Um tigre entra pela porta da cozinha. Me olha. Sai. Um morcego passa voando por cima de mim. Para na cadeira do lado de lá da mesa. Mostra os dentes. Um morcego vampiro.

– Psiu!

Olho pro lado esquerdo e uma coruja pisca pra mim. Ela voa até meu ombro. Sussurra umas palavras numa língua estranha. Bica minha orelha e sai voando pela porta de entrada que se abre e depois se fecha. Em cima da porta que dá pra cozinha uma inscrição.

MORTE E RENASCIMENTO

A GUERRA É A MÃE DE TODAS AS COISAS

Madame Tussaud entra.

– Interessante o tapete, Dona

Dona é a tua vó!

Diz a voz velha e rouca entrando na sala. Traz nas mãos quitutes e algo que faz fumaça dentro de um bule. Pelo cheiro deve ser chá do Ceilão. Uma mistura de Jasmin com Capim Limão invade o ar. Delicioso.

– Me chame de Madame.

– Ok, Madame Tussaud.

– Piá atrevido! O que você quer de mim?

Ela coloca os quitutes em cima da mesa sem a menor intenção de que aquilo seja para mim. Apesar de haver na mesa duas xícaras e dois pratinhos. O cheiro é tão delicioso que vou metendo a mão no bule.

– Obrigado, Madame.

– Tire a mão daí! Isso não é pra você.

A voz do diabo. Mas o diabo não está aqui.

Eis que sai da cozinha um rapaz moreno alto bonito e sensual. A cara do Marlon Brando no Poderoso Chefão.

– Você é bem parecido com o Marlon.

– I´m gonna make you an offer you can´t refuse.

– Hahaha! Essa imitação de Don Corleone é a mais barata que eu já vi!

– Com quem você está falando, Detetive? Por acaso você é retardado?

Pergunta a Madame.

– Esse é o Marlon. Marlon, esse é Detetive Tampinha.

– Você deve estar me gozando.

– Ei, Detetive, você está muito esquentadinho com a Madame. Acho melhor você ficar quieto por uns minutos.

O cara faz um movimento com as mãos e eu fico sem voz. Pelo menos ainda posso pensar. Penso.

– Essa voz é a do Cramunha, mas ele não tá aqui.

– Detetive! Para de encher o meu saco!

– Nossa, você é o Marlon!

– Ele ergue as duas sobrancelhas em sinal de E quem mais eu seria!

– E não é que vocês são parecidinhos mesmo.

O Marlon senta. Beija uma das mãos da Madame. Os dois parecem ser amigos de outros tempos. Ficam se flertando e se conversando sobre a terra a água a metafísica o futuro o passado e tudo isso em línguas que eu nunca escutei. Eles estão falando umas coisas das quais não faço a mínima ideia de onde vêm. E riem muito. Madame Tussaud parece uma jovem cheia de vida quando ri com o Marlon. Os olhos dela brilham enquanto ele se exibe. Nem parece aquela velha chata.

E eu ali naquele lugar exótico vendo coisas exóticas enquanto os dois se divertem. Começo a me encher. A Jéssica também.

Deve ter passado uns cinco anos até um dos dois se calar e lembrar de mim. Ela vira e diz.

– Então o teu problema é o Poodle Esmeralda.

Tento falar. Não dá. Então penso.

– Quem te contou?

– Está estampado na tua cara de bobo.

– Olha o tipo dessa velha doida.

VLÓSH!

Ela mexe o olho direito e eu viro uma pulga. Tento pensar e não sai nada. Só consigo enxergar a toalha da mesa. Salto pra dentro de um dos pratos e dali pra ponta do nariz do Marlon. Todos os bichos da sala me olham e riem. O Marlon me pega na ponta dos dedos. Me aperta. Então sai uma gosminha e eu morro.

(continua)

BREVE OBITUÁRIO COTIDIANO – parte 3 de 7

O 9º Distrito é um lugar fedorento. Muito conhecido por seus negócios escusos e pela marginalia que anda por lá disfarçada de policial. Lá dentro ninguém sabe quem é quem. Todos usam máscaras. Os caras têm conexões com toda podridão da cidade. É de lá que jorra a maior parte da cocaína e do crack que são consumidos no Centro e adjacências. Eu trabalhei lá um tempo no começo da carreira quando eu ainda era um policialzinho borra botas. Durou até eu entender o esquema do negócio. Fiquei quatro anos no distrito e consegui apenas uma botinada na bunda. Arranjei encrenca com um detetive com bem mais tempo de casa. O cara tinha vinte anos de caserna e gostava de sair na madrugada rapelando a molecada com a ajuda de mais dois safados. Era um velho de cabelos e barbas brancas. Detetive Fonseca. Os piás eram o Perna e o Xarope. Uma noite na minha folga eu tinha saído pra tomar umas biritas com uns conhecidos num bar perto de casa e na volta peguei esses três safados limpando uns piás que estavam marcando touca na esquina da República Argentina com a rápida que vai pro bairro. Ali no Água Verde. Encostei o Inércia uma quadra pra cima perto de uns sobrados e fiquei de butuca entre as árvores. Tinha um velho com dois piás. Detetive Fonseca. Reconheci de longe por causa da cabeleira branca e da pança de cachaça. Ele ficou em pé encostado no capô do carro. Um chevetinho branco mequetrefe ano 79 rebaixado e com todos os vidros fumê. Ficou lá enquanto os dois cretinos davam umas bordoadas e uns cascudos na piazada. Levaram tudo dos bolsos os piás. Não fiz nada na hora. Fiquei com medo de ser repreendido. Depois que eles abandonaram o local fui conversar com os piás. Um deles era um primo distante. Um sobrinho da minha mãe que vi numa festinha de adolescente há anos atrás. Ele não me reconheceu. Estavam todos muito bêbados. Eles estavam em sete. Seis de pé no muro e mais um deitado numa escada estava servindo de maca. Estavam carregando o piá pra casa. Coitado. Estava mais torto que bambu na ventania. Saquei na hora a dos policiais. Sair por aí roubando a piazada que vaga alucinada pelas ruas escuras de Curitiba. É um bom pretexto. Todo piá quando tem 16 17 anos sempre tem um baseadinho no bolso. E quando isso não acontece os canas arranjam um jeito de te enfiar uma culpa goela abaixo. E aí não tem jeito. Você acaba entregando tudo pra não passar uma noite no distrito e o teu pai ter de ir lá às quatro da matina descobrir que o filho fuma um baseadinho com a galera.

Troquei uma idéia com a molecada e eles me contaram que estavam vindo de uma festa de aniversário regada a pinga Tatuzinho e garrafinhas de Éter roubado do laboratório de química do colégio de um dos organizadores da festa. Falei que era policial e que ia dar uma ajuda levando-os até em casa. Nada demais. Enfiei todos no Santanão e os deixei algumas quadras mais adiante num condomínio gigante com milhões de blocos. Condomínio estilo pombal. O mais surreal foi encontrar três amigos deles na frente do prédio completamente putos de terem sido roubados pelos mesmos policiais. Na hora não me contive e comecei a rir. Era muita sacanagem pruma noite só. Os safados estavam fazendo fila pelo bairro. Os três contaram sua história triste. Eu anotei todos os detalhes. Talvez isso fosse me servir pra alguma coisa. Na hora eu achei que não serviria. O fato é que depois se tornou legítimo quando da minha briga com o detetive Fonseca. Nunca mais vi os moleques. Mas a briga com o Fonseca eu não esqueço até hoje. Essa visitinha ao 9º distrito vai deixar muita gente de cabelo em pé.

– Vingança, Detetive?

– Você por aqui? Quer café?

– Não seria muito inteligente da sua parte entrar em um distrito querendo apagar alguém.

– Quem disse que eu vou entrar lá?

Não sei o que o 9º distrito tem a ver com o cachorro da ricaça gostosa. O Cramunha deu a dica. Tenho de dar uma conferida nisso. Alguma coisa está me cheirando bem. E de qualquer forma uma visitinha surpresa aos meus velhos amigos vai cair muito bem.

Levanto do sofá. Cato o chapéu do cabide. Meto a Jéssica no coldre. Me abasteço de cigarros. Chave do Inércia. Capotão. Ajeitada na gravata. Óculos escuros.

– Eu sou ou não sou um cowboy, hein Cramunha?

– Não esqueça o orgulho, Detetive.

Rimos.

Tranco o escritório. Entro no elevador. O diabo sempre comigo.

– O Edifício Asa no final da tarde é meio bucólico.

– São seus olhos, Linhares.

Entro no Inércia e sigo em direção ao 9º distrito.

– Cramunha, o negócio é o seguinte. A gente chega lá na frente e você me dá a dica, ok? Depois eu me viro.

Eu sempre levo o diabo comigo aonde quer que eu vá. Ele sempre tem umas dicas certeiras.

Pego a Carlos de Carvalho até o final e entro à esquerda na Arthur Bernardes.

– O caminho até lá vai ser rápido. Quer parar num posto pra comer alguma coisa?

– Para no X-Picanha.

Paro no X-Picanha da Batel e mando um X-Burguer especial com Coca. O diabo fica no carro. Ele não gosta muito dessas porcarias modernas industriais. Diz que faz mal pra saúde. O X-Picanha é especial. Não faz mal a ninguém. E tem até delivery. Sempre peço lá no escritório. Melhor que cozinhar num fogareiro à gás medieval. Aqui pelo menos a comida já vem pronta e não precisa esperar. Eu odeio esperar.

– Quanto deu?

– Setenta e cinco?

– Ok. Pela praticidade até que vale a pena.

– Não, obrigado. Me dá também um Marlboro Vermelho Box.

– Não, esse de maço no final fica parecendo cigarro de bêbado miserável.

– Pois é, eu vi. Dizem que ele tá na próxima lista de convocados. Acho que o técnico mandou bem. O guri tá comendo a bola.

– Hehe. Não fosse o salário acho que nenhuma dessas guriazinhas escrotas ia ficar correndo atrás desses piás.

– Beleza. Valeu.

– Eu falo pra ele. Falou.

Volto pro carro. O Cramunhão já está arrancando as barbas.

– Tem que ficar de papo com todo mundo.

– Porra, Cramunha! Qual é!? O cara é carente! Fica aí nessa merda o dia todo só no delivery.

– Pela empolgação era futebol.

– Você tá parecendo ex mulher.

Penso e logo fico quieto. Lembro de uns versinhos do tempo de quartel.

toda mulher é o diabo

não há homem que as negue

e todos eles desejam

que o diabo as carregue

Lógico.

O diabo ri.

Sigo a estrada até a frente do 9º distrito.

– Não tenho a mínima idéia do que fazer aqui. Vou ter de improvisar.

Vejo se não tem ninguém em volta. Dou uma olhada na rua. Nada. Movimento normal de carros. Tudo muito pacato no distrito. Viro o retrovisor pro meu rosto pra arrumar o chapéu e

PAM!

Detetive Fonseca.

O Cramunha já se foi.

Essa é a dica.

O diabo dá sempre um jeito.

Me mando pra dentro do distrito na maior cara de pau. Só eu e a Jéssica. Vou logo entrando e uns babacas já vem puxar meu saco.

– E aê, Fonseca!?

– Qual é?

– Esqueceu alguma coisa?

– Porra, saiu daqui dizendo que só voltava amanhã de tarde.

– Ficou com saudade da delegacia?

Alguns idiotas riem. Fico sério. Cara de mal. Todos se calam. Pelo jeito o poder do Fonseca é maior do que eu pensava. Reconheço algumas figuras ali. Cardoso. Serviu comigo no 5ºBlog. Genivaldo. Bucha de canhão com quase trinta anos de casa. Só pega trabalho boca podre. Garcia. Pistoleiro vagabundo que limpa chassis de carros roubados. O Léco. Goleiro do time da delegacia. Gente boa. e o Renato que já me quebrou alguns galhos. Mas de uns tempos pra cá começou a fumar a pedra e migrou de lado. Se eu disser que senti saudades estou mentindo. Meu desejo é ver essa corja cavando a própria cova. Acho que esse disfarce me dá o direito de fuçar aonde eu quiser.

– Alguém trás pra mim os BOs dos últimos sete dias que contenham furto ou roubo ou assassinato ou qualquer porra sobre uma gran fina que perdeu o cachorrinho de estimação.

Os policiais ficam se olhando.

– Vamos, porra! Alguém se mexe!

– Mas, chefe, não atendemos nada do gênero e

– Então, alguém vai ali no banheiro rapidinho e caga um pra mim, por gentileza? Cadê a secretária?

Bosta! Eu não sei o nome de ninguém.

– Olha, chefe, a Geruza já saiu faz algumas horas. O senhor tá bem?

– Não! Tô puto!

Vou dar um chute aqui. Espero que eu acerte.

– O negócio é o seguinte. A irmã da minha mulher tem uma amiga que é parente próxima de um primo dela que tem um conhecido que é vizinho de um outro primo dele que é casado com a sobrinha de um dos irmãos daquele amigo nosso detetive o Vargas lá do terceiro distrito que disse pra mim esses dias que eu precisava me arrumar melhor comprar uns ternos diferentes e comer menos gordura pra viver um pouquinho mais então entendi o recado e fui atrás de uma academia e acabei conhecendo o dono da loja de automóveis da esquina da Kennedy com a Brigadeiro Franco e ele me disse que precisava da nossa ajuda pra encontrar a cachorra da melhor amiga da filha dele que estuda no colégio Bom Jesus e que não dorme há dias por causa do sumiço da cadela e a mãe que tem uma loja de jóias na Av. do Batel não agüenta mais a filha enchendo o saco de noite e de dia por isso eu preciso do BO agora nem que você tenha que parir um pelo nariz! Você me entendeu?

Fica todo mundo com aquela cara de paisagem morta.

Golaço!

Nisso entra um guri de uns vinte anos correndo pela porta.

– Tá aqui chefe.

– O que?

– O BO que o senhor pediu.

– E onde você conseguiu isso?

– Ele foi lá cagar. Não foi isso que você mandou?

Diz o diabo entrando pela porta.

– Engraçadão.

Digo eu.

– O que é engraçado, chefe?

– Tua vó! Fala aí como você conseguiu esse negócio.

– Entrei no sistema integrado das polícias e descobri que o BO foi feito por um homem, e não por uma mulher, há dois dias, no 2º distrito, e que o cachorro é um poodle de olhos verdes

– As esmeraldas.

– com uma faixa no pescoço

– Ok, ok! Se tá tudo escrito aí porque você tá me contando tudo de novo? Parece burro! Me dá aqui esse troço!

Arranco o relatório da mão do piá. Ele é bom. Não fosse o meu disfarce eu mandaria ele embora. A polícia não precisa de caras bons como esse piá.

– Será que se você pedir pra ele comer o côco dele, ele come?

– Cala a boca, Cramunha!

– Foi mal, chefe.

– Não você, porra!

– Quem é Cramunha, chefe?

– Pára de me chamar de chefe, cacete!

– Mas foi o senhor que mandou todo mundo te chamar de chefe.

– Ok. Então, a partir de hoje todo mundo pode me chamar de bróder, ok? E não precisa mais ficar pedindo licença pra entrar e sair da minha sala. Eu acho isso um saco. E pode usar o meu banheiro numa boa. E o expediente será reduzido em uma hora nos plantões. E avisa a Geruza que é pra mudar a porra da marca do café. Esse aqui não serve nem pra reserva de gandula. E bota pizza pra todo mundo, inclusive para os presos, toda quarta-feira, beleza?

Os caras começam uma ovação. Até parece que o clube deles ganhou o campeonato.

– Você é um tremendo filho da puta, Linhares. Eu gosto disso.

– Eu sei ser um cara legal de vez em quando.

Foi eu terminar de falar e um deles já estava pendurado no telefone com uma lista interminável de pizzas nos sabores mais esdrúxulos possíveis.

– Hehe.

O diabo ri.

Dobro o relatório e saio do distrito. Volto pro escritório. Passo um café. Sento na minha mesa e abro o BO. Acendo um cigarro. Um milhão de coisas passam pela minha cabeça.

– Não tenho a mínima idéia de onde achar esse maldito cão!

Releio trezentas vezes o BO. Começa a me dar sono. Esfrego os olhos. Acendo um cigarro. Emborco mais um café.  As letras começam a se mexer no papel. Correm pra lá e pra cá. Falam comigo.

PLÓF!

Caio com a cara em cima da mesa. Apago.

Acordo de manhã caído no chão com uma vontade absurda de encontrar uma pessoa. Ela mora no primeiro andar.

Madame Toussaud.

(continua)

BREVE OBITUÁRIO COTIDIANO – parte 2 de 7

– Acorda aê, vagabundo!

– Ééé, acorda que nóis têmo que trocá umas idéia!

Antes de abrir os olhos já sei que há dois caras em cima de mim. Finjo que estou dormindo e um deles faz o favor de me dar uma baldada de água fria.

– Filho da puta!

– O que foi que você falou, Detetive?

O safado mete o 38 na minha fuça. Eu sei quando não estou ganhando o jogo. Não me mexo.

– Ok. Perdi. Você já pode tirar esse negócio do meu nariz.

– Acho que a coisa está feia pro seu lado, Detetive. Quer uma ajudinha?

Diz o diabo saindo da cozinha com uma xícara de café.

Ele põe a bunda magrela na minha cadeira. E os pés em cima da mesa.

– Dá pra tirar a porra do pé de cima da mesa, caralho!

– Que foi que você disse, Detetive?

– Aceitam café?

– Mas é claro. Pega lá, Trôxa.

– Eu não! Pega você, Bósta.

– Nem fudendo. Da última vez fui eu quem pegô

– E daí?! Lá no China eu que segurei o cara pá você dá uns tapa. Pega lá!

– Ããã… é verdade. Tá bom…

– Treis gotinha, hein? Num vai por quatro que cê sabe que eu num gosto.

É nessas horas que eu pago cinqüenta reais pra ver a minha cara de bobo enquanto esses idiotas discutem. É sempre assim. Os chefões do crime organizado deveriam recrutar seus capangas em universidades e não nas ruas.

– O adoçante acabou, Detetive.

Diz o diabo pra mim.

– Pois é. Eu sei. E talvez eles ainda briguem e quebrem alguma coisa aqui dentro.

– Eles são sempre assim…

O Bósta é quase do tamanho da porta. Gordo e de voz mansa grave e mocoronga. Tem os olhos baixos e caídos nas extremidades. Quase não dá pra ver as duas bolinhas dentro da cabeça. Nariz pequenininho e quase nenhum dente na boca. Uma espécie de versão pulp noir do Slot. Só que de bermuda jeans e camiseta do Ramones.

Já o Trôxa dá pra saber só pelo jeito que ele fala. Todo malandro moleque. Cheio de ser o bom da boca. Tem a fala fina e rápida. É pequeno e rápido nos movimentos. Tem os olhos grandes e redondos. O nariz fininho. Tipo chefe de cozinha francês. Camisa de gola italiana com blazer e calça de linho e sapatos bem lustrados. Ele jura que é uma imitação perfeita do seu chefe. Uma espécie de versão abobalhada dos Irmãos Cara-de-pau.

– São sempre assim.

Respondo ao diabo.

– Sempre o que, Detetive?

– Então, os dois já têm o que querem?

– Ããã… Trôxaaa, não encontro o adoçante de gotinha!

– Estou sem no momento. Parece que o diabo tomou tudo.

– Põe açúcar, então, Bósta.

– Quanto eu tenho que pôr, Trôxa?

O diabo ri. O diabo só ri nesse filme.

– Xicrinha ou caneca?

– Caneca.

– Duas colher tá bom. Então, Detetive Linhares, tâmo querendo sabê da tal mulhé que veio aqui ontem.

– Hoje já é amanhã?

– Do que cê tá falando, Detetive?

– Acho que dormi demais e estou tendo um pesadelo.

Acabo de me tocar que estou acuado em meu próprio escritório e que deve ser umas dez da manhã. Que a Jéssica está dentro da gaveta e que os safados estão acabando com o meu estoque de café. Fico puto.

– Olha lá, Trôxa, o Bósta tá tomando todo o café. Você vai ficar sem, hein…

– Que?!

Ele vira pra trás para olhar. Nem a piazada da quarta série cai mais nesse truque. Cato o Trôxa numa gravata e enquanto isso o diabo que não é bobo me arremessa a Jéssica.

CLÉC!

Em menos de um milésimo de segundo estou com a Jéssy enfiada na nuca do nanico.

– Avisa teu amigo que é pra ele vir sentar aqui e não bancar o amigo que salva todo mundo no final do filme senão a empresa de lixo vai catar os pedacinho de vocês dois daqui até o Botiatuvinha.

Falo bem baixinho no ouvido do nanico.

O diabo mata o último gole de café. Deixa a xícara em cima da mesa. Levanta e sai. Lá da porta dá um aceno.

Eu continuo com a cena.

– Avisa o teu amigo!

– Tá bom, Detetive! Tá bom! Peraí! Ééé… Bóstinha querido, você pode vir aqui na sala com bastante calma, por favor?

O Bósta bota a cabeçona na porta e se assusta. Tadinho.

– Ããã!? Que é isso?! Larga ele, Detetive idiota! Vô acabá com você!!!

Ele saca um revólver de dentro da bermuda. O Trôxa entra em pânico.

– Nããããoooo, Bósta!!! Ele vai matá nóis dois!!! Não faz isso, porraaa!!!

– Ããã, porque não?

– Se acalme, queridinho, se acalme… tá tudo bem, o Detetive é amigo e não vai fazer nada desde que você não faça nenhuma besteira.

O Bósta para na porta com a arma apontada pra mim.

– Põe esse revolvinho de volta no lugar de onde você tirou ele e senta bem aí aonde você tá.

Às vezes eu me sinto o próprio Billy the Kid. Fico imaginando o que ele faria numa situação como essa. O jeitão dele. Sabe? Tem dias que eu fico treinando o jeito que ele olharia prum safado como esse e que texto ele daria pro cretino. É uma coisa meio James Jean meio farwest meio eu mesmo. Quando eu era criança eu ficava excitado com aquelas cenas românticas dos filmes de cowboys. O sol se pondo. Dois caras prontos pra estourar os miolos um do outro. Os gatilhos mais rápidos do oeste. A coisa toda. Você entende o que eu estou dizendo? É um troço meio filme de samurai. Não sei explicar direito. Coisa de Kurosawa mangá quadrinhos Tarantino. Não sei dizer. É uma sensação muito louca e excitante. Fico imaginando aquele último trago no cigarro. A bituca arremessada pro lado. O cara que dá o último gole na cachaça e bate o copo no balcão. O sol queimando as nossas nucas. O suor escorrendo lentamente pelas têmporas. As frases de impacto ditas de um jeito meio ininteligível. Hehe. É isso aí.

Enquanto olho pros dois começa a tocar a trilha do filme Butch Cassidy & Sundance Kid. Rain drops keep falling on my head. E vejo o Paul Newman passeando de bicicleta com a Katharine Ross. É uma das cenas mais lindas do farwest norte americano. Fico emocionado.

– Ô Trôxa, o Detetive tá triste…

– É mesmo. Tá cos zóio cheio de

– Tá, tá, tá, tá! Cansei dessa lenga lenga.

– Que?

POW!

– Hã?

POW!

Um tiro na nuca do nanico e outro na boca do cabeção. Os dois corpos estatelam no assoalho. Enrolo tudo em sacos pretos de lixo e espero o diabo voltar pra dar um jeito nos defuntos. Tomo um banho na pia do banheiro. Na volta os corpos não estão mais lá. Em cima da mesa um papel com um telefone anotado.

Ligo.

Uma voz feminina atende.

– Nono Distrito.

O diabo ri.

(continua)

BREVE OBITUÁRIO COTIDIANO – parte 1 de 7

Ilustração de Fabiano Vianna

Ilustração de Fabiano Vianna

Tic tac. Tic tac. Tic tac.

36 graus. Suando a bicas. Cueca e sem camisa. Ventilador no máximo. Saco de gelo na testa. Ar condicionado pifado. Curitiba no calor é o inferno.

Tic tac. Tic tac. Tic tac.

O diabo sentado em cima da mesa olhando pra mim. Ri.

– Calor, Detetive?

O diabo é um safado esperando a morte bater à porta pro acerto final de contas.

– Café?

Ele pergunta.

Tic tac. Tic tac. Tic tac.

– Você está na merda, Detetive!

O diabo tem razão. Preciso trabalhar. Sair deste sofá.

– Você poderia sair por aí procurando esposas gostosas de milionários. Que tal? Arranjar uma dessas coroas gostosas casadas com políticos e

Tic tac. Tic

POW!

– Nervoso, Detetive?

Seu sarcasmo é como uma faca que entra e sai do fígado no ritmo constante de um relógio.

– Pode ser legal. A esposa gostosa de um fodão da indústria da cerveja. Cobrar tudo em cerveja. Você iria gostar.

Toc toc toc.

– Não vai atender, Detetive?

Toc toc toc.

– E se for a esposa gostosa querendo que você ache o marido desaparecido?

– Duvido.

– Quer apostar?

– Aposto a minha alma.

– Fechado.

TOC TOC TOC!

– Eu se fosse você atendia.

CRASH!

Um cara de três metros de altura por dois e vinte de largura acaba de quebrar a minha porta. Não é a primeira vez. Não é a última.

– Esses brutamontes não entendem nada de etiqueta.

– Você deveria ter atendido a porta.

– Você não sabe ler? Tem uma plaquinha na porta.

NÃO FODA! ESTOU DORMINDO!

O gigantão sai da frente da porta e uma gostosa vestida de vermelho entra girando a correntinha da plaquinha nos dedos. Senta na mesa ao lado do diabo.

– Sabe de uma coisa, moça? Daqui do sofá até que vocês dois são bem parecidinhos.

O diabo ri.

A moça não.

O brutamontes fica no lugar da porta.

– Em que posso ser útil?

O gigante se abaixa e pega a minha calça que está no chão. Taca pra mim.

– Obrigado.

A moça imperatriz ao lado do diabo começa a cagar ordens.

– Ivan! Vista o nosso amigo.

– O gigante das neves vem até mim e me cata pelos bíceps e me põe de pé.

Ele grunhe. Acho que não gosta de mim.

– Pode deixar, rapaz. Sei fazer isso sozinho.

Visto a calça. Boto a camisa. Meto o chapéu na cabeça. Enfio os pés nos sapatos. Tudo sincronizado. Movimentos ninjas.

PÁ PUM!

– Exibido.

Diz o diabo.

– Pareço um cowboy de filme. Você não acha?

Rimos. Eu e o diabo.

Ela e o anormal ficam em silêncio com cara de nuvem.

– Pode me chamar de Detetive Linhares, dona. A partir de agora estou ao seu dispor. Qual é o negócio?

Ela senta na minha cadeira de detetive. Não gosto disso. A Jéssica não gosta disso. O diabo ri.

Ninguém deve ficar pondo as nádegas na cadeira dos outros.

– As gostosas sempre podem, Detetive.

– É verdade. As gostosa podem. Vamos abrir esta exceção, então.

O diabo vai pra trás dela. Ivan está lá na frente da porta. Agora ele é a porta.

Acendo um cigarro.

– Fuma?

Pergunto pra moça.

– Ela é linda pra cacete! Cê não acha, Cramunha?

– Mais ou menos.

– Tsca! Cê não sabe nada.

– Não essas porcarias.

Ela diz.

E faz um sinalzinho com as mãos chamando o gigantóide.

– Ivan!

Ele vem com um cigarrinho numa das mãos. Suas mãos são enormes. Bem maiores que o cigarro. Ele não consegue manuseá-lo direito. Ele estica o cigarro para ela. Ela põe o bastão na boca. Delícia de boca. Ele estala os dedos e uma chama brota da ponta do seu dedão.

PUF!

– Ei, gigantão! Muito legal isso! Como é que você faz?

Ele acende. Ela traga. Na primeira tragada ela já mostra a que veio. Solta a fumacinha em bolinhas bem do jeito que eu gosto. Faz o biquinho. Depois a sopradinha de leve. E os esfíncteres de fumaça começam a sair pela boca. Aí ela vai pulsionando soprada após soprada em um movimento sincrozinado entre a garganta o palato e os lábios. E o formato dos lábios dão o formato da bolinha. Conto vinte e sete bolinhas. O diabo bate palmas.

– Haha! Ela faz vinte e sete. Bateu seu recorde.

– Ei, moça. Quantas bolinhas você já conseguiu soltar depois de uma tragada?

Agora quem ri é o ivan.

– Eu preciso que você encontre meu cachorro de estimação.

Ela interrompe o nosso joguinho.

– E o que ele tem de especial? Além de ser seu.

– Bela resposta, Detetive. Talvez agora ela queira sair e transar com você.

Comenta o diabo.

– Ele é meu.

– Ótima resposta, dona. Essa é a melhor justificativa pra eu sair atrás do seu cachorrinho de estimação.

– Você é um idiota, Detetive.

Comenta o diabo.

– Como ele é?

Ela abre a gaveta da mesa.

– Agora ela te pegou, Linhares.

– É um pequeno poodle branco com olhos verdes e

Ela puxa um dos meus gibis.

– Você sabia, Detetive, que a maioria dos homens gostam de ler as revistas Playboy pelo mesmo motivo que lêem a National Geographic?

– Continue.

– Para ver lugares que jamais irão visitar.

Golaço.

O diabo agora está gargalhando e talvez morra sufocado de tanto rir.

Eu estou apenas a minha cara de paspalho. Fico branco verde amarelo rosa roxo vermelho e volto ao bege normal.

Ivan apenas olha e move o canto dos lábios como quem diz Golaço!

Ela solta a bomba e fecha a revista. Olha pra mim.

– Quantos anos você acha que eu tenho, Detetive?

Gostosa desse jeito deve ter uns quarenta.

– Trinta e seis ou menos.

O diabo não para de rir.

Ela pega o cigarro do cinzeiro mete na boca e dá uma tragada funda. Mata o cigarro numa só puxada e o apaga na mesa. Taca a bituca pra trás e o brutamontes abocanha a bagana de primeira numa só pegada.

Esse Ivan é cheio de truques.

– Bela pegada, Ivan! Você podia ir trabalhar no circ

VLÓSH!

A mão dele passa raspando a minha cabeça. Ainda bem que deu tempo de se abaixar. Ele taca a mão que ricocheteia na parede e agora está voltando pro resto do braço. Dessa vez fico quieto. Sinal de respeito. Ele grunhe de novo.

– E esse Poodle, dona?

– Ele sumiu faz três dias.

– Além dele ser seu, o que mais é importante nele? Algum detalhe?

– Seus olhos foram cirurgicamente retirados e no lugar foram implantadas duas esmeraldas.

– Só isso?

– Sim. Ele sumiu da frente de uma loja de jóias na Av. do Batel. Ivan estava muito ocupado urinando em um hidrante e não viu a cadelinha ser retirada de dentro do carro, não é Ivan?

Dessa vez ele não grunhiu.

– Certo.

Interrompo porque o constrangimento do brutamontes me afeta de alguma forma.

– E você viu alguma coisa, Ivan?

Ele balança a cabeça em negativa.

– Bom, dona, creio que este serviço vá lhe custar caro. Estamos sem pistas concretas e

Ivan se aproxima da mesa. Se ajoelha na frente dela. Ela levanta a peruca de Ivan e abre um zíper que tem no topo da cabeça dele. Tira um chumaço de notas de cem e me entrega.

– Aqui tem um bom dinheiro pra você começar. Meu cartão.

No cartão vermelho sangue está escrito Linda. Ela redunda de tão gostosa.

– Ok, dona Linda, em uma semana seu totó estará de volta ao lar.

– Uma semana.

Ela levanta e sai. Ivan recoloca a porta no lugar e sai também. Fico eu o ventilador e o diabo. E ele ainda ri.

– O que foi agora?

– Que gostosa, hein! Vou nessa. Tenho de trabalhar. Passo aqui amanhã prum cafezinho.

PUF!

Ele vira fumacinha e se vai.

Deito novamente no sofá. Coloco o ventilador bem perto de mim. Cubro o rosto com o chapéu.

– Tenho sete dias pra resolver isso. Vai ser moleza.

(continua)

Rato de Praia

MELIANTE, por Foca Cruz

MELIANTE, por Foca Cruz

– Temos de chegar lá, Jéssy!

BAM!

BAM!

BAM!

Três tiros na nossa direção.

CRASH!

Pedacinhos de tijolos voam por cima do meu chapéu. A Jéssica está vazia e eu já começo a sentir saudades do Fúlvio. Paro atrás de uma caçamba de ferro no canto da rua. Me agacho e bolo uma estratégia.

– É o seguinte, baby. Esses caras não vão acertar a gente. São meio ceguetas. A gente vai sair correndo até a porta de emergência daquele prédio no fim do beco. Meto o pé nela e fugimos pelo terraço. Lá em cima eu sei que tem uma saída conectada com o prédio do lado.

– Boa ideia, Linhaça! Mas você já combinou com os safados pra eles não acertarem nenhum tiro na gente?

– Haha! Você é demais, amorzão. Eles não vão acertar. Você sabe que não. Vamos lá. Se liga. Vai ser no três.

1

2

VAI!

A porta está aberta e não preciso dar um chutão. Em compensação a saraivada de tiros foi bizarra. Nunca vi tanto projétil caindo perto da gente. Parecia chuva de aço. Pela barulheira os caras devem ter dado pelo menos uns quinze tiros cada um. Por sorte nenhum deles nos acertou. Pulo pra dentro do corredor escuro do prédio e caio com a Jéssica enrolada no casaco. Rolo feito um cão que perdeu a rinha e continuo correndo. Não tenho a menor ideia do que estou fazendo e nem aonde vai dar esse final de noite. Mas uma coisa pelo menos está do nosso lado. Esse é o prédio da Ana Escovinha. E ela vai nos receber por amor.

Eu e Jéssica continuamos correndo pelo subterrâneo do prédio da Ana e ouvindo o barulho dos safados diminuindo atrás de nós até pararem. Ou pelo menos eu acho que pararam. O que dá na mesma. É que sem munição e com a pata esquerda fodida eu não estou dando pro gasto. E o olho esquerdo ainda tá saindo sangue por causa do socão na saída do Gato Preto.

– Porra, Linhares! Cê tá a capa da gaita!

– Relaxa, amorzão. Amanhã vai ficar tudo bem. A gente acha a saída e cai fora. Vai ser fácil.

– Sempre é fácil.

Acendo um cigarro.

Os infindáveis corredores dão numa porta de ferro. Abro. Dá pra garagem do prédio.

– Maravilha!

– Ei, man, podíamos simplesmente pegar um desses carros e

– Nem fodendo! Sem o Inércia eu não volto pro escritório!

– Ok. Mas o Inércia tá lá na Cruz Machado com o pneu furado e o vidro da frente quebrado e um tiro no radiador e os caras ainda ficaram com a Derruba Delinqüente.

– Ficaram nada. Eu escondi a fitinha aqui ó. Um pouco antes de começar a putaria eu saquei a fitinha do toca fitas.

– Menos mal.

– E tem outra, Jéssy. O Inércia é a única viatura que ainda roda com toca fitas. Quem vai querer ficar ele? A piazada hoje tá afim de CD DVD GPS a porra toda.

– Nesse ponto você tem razão. Ninguém vai querer arrancar o som do carro. A não ser que fosse por vingancinha. Haha!

– Mas aí nós vamos até o inferno pra achar o cretino.

– Se já não fizeram, né, man?

– Ô, amorzão, cê tá do meu lado ou do deles?! Pô!

– Foi mal. Tava pensando nas possibilidades.

– Relaxa. Depois a gente pega o Inércia. Duvido que alguém vai querer fazer alguma coisa com ele.

Seguimos pela garagem e paramos na frente da porta que dá pro hall do elevador.

– Qual andar?

– Não lembro. Acho que é o 15.

– Espera um pouco. Escuta.

Barulho de quatro pessoas caminhando. Pelo cheiro são os caras que estão perseguindo a gente. Mas não são os mesmos. Afasto um pouco a porta de ferro e dá pra ver que realmente são quatro caras. E estão fardados como PMs.

– Aê, amorzão, acho que são os caras do Fala-Fina.

– Como é que cê sabe?

– Olha a marca no pescoço. É igual a dos caras de Guaíra.

– Putz! É mesmo. São eles!

– Devem tá indo no mesmo lugar que a gente.

– Veja pelo lado bom. A Ana não tem como não atender a gente.

– Hehe! É verdade.

O elevador chega e os caras entram.

– Qual andar chefe?

– 15.

Eu olho pra Jéssica que olha pra mim. Ela sempre tem a razão.

– Deixa os caras subirem e aí a gente pega o elevador e para no 12. Depois continuamos de escada. Tô achando que vai dar merda.

– Beleza.

Pegamos o elevador e descemos no 12. Subimos correndo as escadas. A confusão ia começar de novo. Paramos na frente da porta de acesso ao 15º andar e dá pra ouvir os caras conversando com a Ana. O sotaque carioca de novo.

– É o seguinte, dona Ana. Tâmo sabendo que a senhora está abrigando dois elementos estranhos aí no seu domicílio.

O cara falando desse jeito lembra aqueles policiais marrentos. Rato de praia. Só que os manés não nasceram no Rio.

– Me desculpe, Seu Policial, mas aqui não tem ninguém.

– Então a senhora não vai estar se importando que a gente esteja dando uma olhada aí pelo seu domicílio, correto?

Os outros dois riram.

– Que dois, amorzão? Cadê o terceiro elemento?

– Puta merda, Linhaça! Não olha pra trás. Acho que ele tá aqui. Respira… relaxa.

Devagar.

Bem devagar fecho a mão direita.

Finco os pés no chão.

Miro o socão.

Miro na cabeça.

Vou virando.

Virando.

Com o canto do olho já vou adiantando o prejuízo.

Devagar.

Bem devagar começo a mover a coluna.

Viro a cabeça um pouco.

E mais um pouco.

Olho pra trás e num movimento ninja

PAW!

Não tem ninguém.

– Ufa!

– Mas ele deve tá dando a volta pelas escad

– Não! Melhor! Ele já está no apartamento. Entrou por outro lugar e a gente não viu! Caralho! Vamos ter de dar um jeito nesses caras nem que seja na cara de pau.

Tiro o casaco e a camisa.

– Que cê vai fazer, Linhares?

– Vou de mais louco que o louco.

Amarro a camisa na cabeça tipo uma bandana. Deixo o casaco e o chapéu ali num cantinho. Tiro também os sapatos e as meias. Fico só de calças e descalço.

– E eu fico aonde, man?

– Vou te amarrar com uma meia na canela. Pode ser?

– E tem outro jeito?

Amarro a Jéssica na canela com uma das meias e saio bem na boa de dentro da porta corta fogo. Não sei muito bem o que dizer. Vou no improviso. Os caras estão ali na porta. Parados feito duas colunas. Até parece que estão me esperando pra continuar com a estória. Chego falando alto e meio que entrando ao mesmo tempo.

– E aí, Ana. Minha querida Ana. Como vai meu amor?

Meto um sotaque de hippie na voz e já chego tascando um beijão na boca da Ana.

– Desculpe o atraso, monamour. Mas é que eu e Jéssica estávamos ali embaixo num papo longo e agradável sobre como a vida nos faz assim tão vazios e desesperados por um pouco de carinho e paz no coração. Você como são as coisas, meu bem. Ela não pode subir. Diz que ia atrás de uns macrobióticos e de um pouco de ferro pro almoço. Então resolvi subir pra matar as saudades, tá ligada?

Falo esse monte de merda e dou uma piscadinha com o olho direito. A Ana fica parada. Não está entendendo porra nenhuma. Continuo.

– E os amigos, moncher? Quem são os amigos? Tudo bem aí, galera?

Eu devo estar parecendo um retardado falando desse jeito lento e arrastado meio mongol.

O chefinho rompe o silêncio.

– Aê, dona, quem é o cabeça de alfinete?

– Desculpem-me, policiais, esse é o meu

– Namorado. Vim de Lisboa. Portugal. Muito prazer. Eu me chamo Carlos. Carlos Aphonso Sillllva. E os senhores?

Fico com a mão estendida e a cara de trouxa olhando pra ele que não move um cílios sequer. Apenas se volta pra Ana com ar de reprovação. Eles deviam estar num esquema que eu estava atrapalhando. Como eu já estou pra dentro do apartamento e eram eles que têm de entrar já vou rápido pra cozinha e começo a fuçar nas coisas pra um cafezote.

Eles entram. Ficam todos de pé no meio da sala. Os três. O que é pior. Por que ainda falta um safado. A Ana vem até mim. Fica em silêncio. Me entrega uma caixa de remédios e volta pra sala. Passo o café. Na sala eles discutem algo sobre armas drogas prostituição. O mesmo papo de sempre. Sei lá o que não sei que lá do Fala-Fina.

– Opa! Ouviu baby?

– Fala-Fina!

Depois da Chacina em Guaíra o único sobrevivente foi ele. Fiquei sabendo que ele estava montando um negócio de carros no interior do Paraná. Umas concessionárias de carros montados no fundo de quintal com peças que vinham do mundo inteiro. Parecia um negócio bacana. Me chamou a atenção porque o Inércia ia mesmo precisar de uma recauchutagem completa quando voltássemos pra casa

– Que cê tá fazendo aí?

Um dos Capangas veio espionar o meu café.

– Café. Sabe o que é? Uma frutinha vermelha que cresce num pé e que usamos a semente e que depois de torrá-la faz-se uma infusão com água quente para se obter um liquido maravilhoso que costumeiramente chamamos café.

– Chama o que? Que cê tá falando, cara?

Num movimento ninja meto o dedo do meio rápido na garganta dele. Ele começa a engasgar. Meto uma gaze molhada num negócio que tinha dentro da caixa de remédio. Nem o Florestano deve saber o que é. O cara dá uma baforada no paninho e cai. Seguro ele pra que não faça zona na cozinha. Arrasto o corpo até a lavanderia. A Jéssica comemora como se fosse um gol. Urra de alegria na canela. Com um pouco de esforço faço a alavanca na janela subindo num banquinho que tem na frente do tanque e taco o corpo lá pra baixo. Ainda dá tempo de ver o pacote estatelar lá no chão.

– Acho que agora a polícia vem.

– Boa, man.

Continuo servindo os cafés. O ratão grita lá da sala.

– O Zé, cadê você? Que vocês tão fazendo aí, caralho?

Pego a garrafa térmica e umas xícaras e vou até a sala.

– Olha o cafezinho! Posso servir os convidados, Ana querida?

– Claro, Linha… Aphonso!. Claro, Aphonso!

– Toma aqui o café. Onde está o outro amigo?

Um dos caras vai até a cozinha chamando pelo amigo. O chefe já está puto. Estamos adiando a merda. Felizmente eu carreguei a Jéssy com alguns projéteis que a Ana meteu na caixa de remédios. Ela tava ligada que ia dar merda. Mando todo mundo pro chão.

– Todo mundo pro chão!

A Jéssy vem pra minha mão mais feliz que bala em boca de banguela.

– Desculpa te deixar lá dentro tanto tempo, baby.

– Não dá nada! Vamos mandar chumbo nesses idiotas!

– Calma, amorzão. A gente precisa saber onde está o quarto cara.

É lógico que nenhum deles se atirou no chão. Senão eles não seriam capangas. Cada um saca seu próprio revólver e começa um tiroteio monumental no meio da sala da Ana. De cara eu já me jogo pra trás do sofá. O chefão dos ratos de praia dá um mortal de costas.

– Caralho! Coisa de ninja, hein, Jéssy!?

– Pois é, pelo jeito as coisas estão melhorando pro Fala-Fina com esse negócio de venda de carros.

O ratão cai perto do corredor e fica por ali atirando. A Ana se arrasta pra baixo da mesinha do telefone. O cara que restou leva um tiro logo de cara e fica todo cagado no meio da sala.

Por um instante paira o silêncio. Como se as ondas sonoras estivessem indo embora feito um mar que esvazia pelas janelas da sala em direção ao horizonte. Olho pela janela e lá se vai o mar com todo o seu barulho e levando todas as pessoas da cidade com ele. E elas caem pelas janelas de braços erguidos com os olhos fechados gritando coisas que não podemos entender. Aí um menino lá embaixo chama meu nome e diz que é pra eu ajudar a achar a mãe dele. E o nome dele é o nome da criança que eu vi no Bar do Tony ontem me pedindo algo pra comer.

PAM!

PAM!

PAM!

– Bóra, Linhaça! Acerta ele!

– Calma! Tô calculando o tiro.

– Olha só, o ratão acertou um tiro na boca da Ana.

– Putz! Que merda! Eu até tava gostando dela.

– Vamos pegar o safado, então! Nem que seja pra pagar a porra do café.

PAM!

– RATÃO, CÊ TÁ FURANDO A PAREDE TODA MAS NUNCA VAI ME ACERTAR! VOCÊ É MUITO RUIM!

Grito pra ele.

– Haha! Ele vai ficar puto, né amorzão?

– Claro! Igual você quando alguém grita desse jeito contigo.

De repente o cara não está mais lá atrás da parede do corredor. Não vem mais barulho de lá. A sala ficou silenciosa. Corro detrás do sofá pra onde o safado estava e de fato ele não está mais lá.

– Amorzão, escuta isso. A respiração ofegante.

Tinha alguma coisa respirando rápido. Muito rápido. Rápido pra caralho e bem perto de nós. Mas eu não conseguia ver nada

VLÓSH!

Isso sempre acontece quando me descuido. O monstrengo estava agarrado ao teto com suas patinhas de ratazana. Ele esperou eu me descuidar e

PLAW!

Me deu golpe certeiro na nuca. Ainda bem que ele é sozinho e eu tenho a Jéssica. Por que bem na hora que a sua bocarra gigante cheia de dentes podres estava engolindo a minha cabeça

PAM!

a Jéssy acertou seu OneShot bem no meio da fuça do safadão. Um projétil de prata bem no meio daqueles olhinhos pequeninos e entupidos de ramela. As coisas dentro da cabeça dele redecoraram a sala com um vermelho muito intenso e cheio de fios e pingos. A bocona do rato ficou arreganhada com a linguona pendurada pra fora e com uns pedaços de dentes semi pontiguados e podres espalhados pela sala. porque sim ele cresceu dois metros depois da transformação. Por que sim ele cresceu dois metros depois da transformação.

– Aspecto interessante o desse sujeito. Vou pegar uma amostra pra levar pro Florestano. O Fala-Fina anda fazendo modificações genéticas na estrutura do povo e é bom a gente se dar conta do que está acontecendo por aí.

– E o quarto cara, Linhaça?

– Sei lá, deve ter fugido de medo. E ainda tem os caras que tão caçando a gente também. O melhor agora é a gente sentar aqui e tomar o cafezote e dar uma contemplada na cidade e esperar a polícia. Aí a gente sai disfarçado de PM e depois pedimos pra rebocar o Inércia até o escritório.

– Ok.

FIM

OLHOS DE ROLLMOPS

– Tony, me dá mais um café, por favor.

Alguma coisa parou na frente da porta do bar fazendo sombra em mim. Olho pro lado e tem um brutamontes do tamanho exato da porta. O cara é bem grande. Tem umas cicatrizes espalhadas pelo corpo. O nariz é grande e torto. Careca. Os braços musculosos.

– Detetive Linhares?

Ele diz.

Falta meia dúzia de dentes.

– Saiu. Foi ao banheiro e já volta.

Diz o Tony.

Disfarçando o riso por causa da cara de panaca que o brutamonte fez.

– Seu café, Detetive.

Agora quem riu fui eu.

– Você que é o Detetive Linhares?

– Todos aqui nesse bar são detetives. Este é um bar de detetives.

– Eu quero sabê se você é o Detetive Linhares!?

– E se eu disser que sim?

– Aí eu te mato.

– Então não.

– Não o que?

– Não te dou meu café.

Dou uma bicadinha no café. A Jéssica começa a se mexer no casaco.

– Espera só um pouquinho, baby. Tô aqui num papo cabeça com o Mister Brutus.

– Do que você me chamou?

Sua voz é grave e rançosa. Meio lenta. Ele raciocina em slow motion. Não me importa. Não me interessa quem é o cara. Ele está parado perto de mim e isso me incomoda. Nesse momento o que eu quero é que os raios de sol da manhã cheguem até mim e me esquentem um pouco. Calculo o tempo que vai levar pra ele sair da minha frente. Em três movimentos ele estará no chão. A Jéssica não. Ela se importa.  Ela é temperamental e se afeta com esses tipos mocorongos. Ela é mulher. Não gosta de caras baforando no seu cangote.

– Vamos acabar de uma vez com esse idiota, man.

– Calma, baby. Vamos dar um jeito nele.

– Com quem cê tá falando?

O ogro dá um tabefe no balcão. O estrondo faz as coisas se mexerem. O vidro de rollmops cai no chão.

CATAPLÉF!

É peido pra todo lado. Peixe com ovo rolando e fazendo cascata no balcão. Pra onde a gente olha tem peixe com ovo. Uma explosão de sabores. O cheiro do lugar tá que é uma catinga só. Jesus do céu. Uma mistura de… não sei explicar… uma espécie de quizumba…  um troço meio gosmento tipo algo meio maldição apocalipse fenda do inferno. Baguio Crazy, man  como diria um amigo meu depois de ver a versão em francês do filme O Último Dragão.

O Tony fica muito puto. Ele cata um pano e começa a limpar o bar.

– Puta merda!

Ele vai lá catar a macumba do chão. A Jéssica começa a me cobrar uma postura mais máscula frente a essa porra toda. O negócio que se instaurou no recinto tá foda. Agora o Mister Pra Que tá macho e tá me olhando com a cara de quem quer comer um espetinho de detetive. Eu. Bem. Eu disse que ia fazer três movimentos e graças a Jéssica será apenas um. É muito engraçado. Parece mágica. Mas a velocidade com que a Jéssica sai pra fora do casaco e para enfiada dentro da boca do grandão quebrando-lhe os últimos cinco dentes que restam é descomunal. É sério! Eu me emociono quando isso acontece.

– Baby, você é demais. Eu me emociono, sabia?

– Tudo bem, Linhaça. Não se preocupe. Agora tá tudo bem. Resolvemos o problema.

– Tony! Que horas passa o caminhão de lixo?

– Daqui uns dez minutos.

O Mister Boca de Valeta tá imóvel. Nem pisca. Parece uma lombriga.

– Gosto disso, Amorzão.

– Do que?

– Desse silêncio que fica no ar depois desses movimentos que você faz. Parece aqueles filmes de japonês. Tudo demora pra acontecer e a gente consegue ouvir até o ventinho passando lá no fundo. Eu acho bem massa.

Ela sorri e bem devagar vai saindo de dentro da boca do grandalhão.

Limpo a baba que ficou no cano. Guardo a Jessy no casaco. Nesse exato momento o que eu mais esperava que acontecesse acontece.

– Porque será que isso sempre acontece, hein, baby?

O idiota do gigantóide tá achando que eu tô me distraindo e vai tentar algo imbecil. Putz. Que merda. Ele vai se arrepender. E sua família também. E suas próximas quatro gerações vão nascer babando. Desvio da sua mão grande e pegajosa que vem da esquerda pra direita rasgando o ar e com um movimento ninja coloco o abobado entre mim e o balcão. O retardadão perde o equilíbrio e seu corpo dobra. Sua cabeça fica a meia altura perto da cintura. O Tony que está agachado catando os rollmops também num movimento ninja entrouxa dois palitos de peixe com ovo bem no meio dos olhos do anormal que na hora começa a urrar de dor.

– Aaaahhhhh!!!

Seus olhos começam a ficar verdes.

– Olha Tony. Parecem olhos de esmeralda.

Depois roxos.

– Vixi. Parece nada.

Depois pretos.

– Já era, Linhares.

PLÓF!

Ele cai de costas no chão. Fica ali parado. Duro. A cara dele começa a roxear junto com o resto do pescoço. Todos ficam calados por um segundo. O caminhão de lixo bate a sinetinha na frente do bar.

– Bem na hora, Tony.

– Linhares, me ajuda com o corpo.

– Sim, senhor.

Levamos o Mister Rollmops pra dentro do caminhão da Lipater. Jogamos o corpo lá atrás. Ele some em meio à montoeira de saquinhos de supermercado. Voltamos para o balcão. Dou mais uma bicadinha no café.

– Urgh! Tá frio, Tony.

– Pode deixar. Eu pego outro.

– Valeu, man.

FIM

ESPALHA ESPERMA – Parte Final

Pedro Ivo quase esquina com a Barão do Rio Branco. Hotel Naipi. Um moquifo que fica no meio da quadra onde as putas e os traficantes vêm brincar. A rua está do jeito que o Diabo gosta. Um monte de gente espalhada fumando pedra e tomando pinga e zanzando pra lá e pra cá. A novidade é um cara vendendo salgados dentro de um isopor.

– Ô, Linhares, cê se importa de pagar um saldoga pra mim? É que tô numa larica desgraçada e

– O que você pediu?

– Um saldoga. Na boa

– Saldoga?

– É

– Que porra é essa?

– Um salgado, detetive. Salgado, saldoga

Às vezes eu acho que o Fórtiunaine não é desse planeta. Eu e a Jéssica ficamos olhando pra ele. Cagamos pra fome dele.

– Vamos entrar. Você vai direto pro segundo andar enquanto eu dou uma olhada no primeiro.

– Tá, mas e o rango

Entro. A espelunca fede duzentos perfumes diferentes. Gosto de uns quatro. A Jéssica reclama do fedor. Coisas de mulher. A entrada da bodega é um corredorzinho minúsculo com um balcãozinho e um idiota atrás. Chego no balcão. O cara sai falando.

– Casal é trinta. Quarto 212. Segundo andar.

– O que? Você tá insinuando que

– Trintão. Quarto 212. Segundo andar. Quatro horas pra você e o magrelo se divertirem.

Escuto até a última sílaba em silêncio. O cara acaba de dar a melhor ideia da noite. Dou os trinta reais pra ele.

– Ok. E tem umas cervejinhas no quarto?

– Posso levar. Quantas?

– Tsca… Sei lá… Quantas você quer, nenê?

O 429 fica com cara de paisagem.

– Desculpa, moço, mas acho que ele se emocionou. Leva uma caixinha.

– Tá bom. Mas, daí, é mais vintão.

– Ok. Tá aqui.

Entrego o dinheiro. Pego a chave. Olho pro Fórtiunaine e dou uma piscadinha com o olho direito. Subimos. Ele leva mais uns minutos pra entender o negócio. Entramos no quarto. Cheirinho agradável de lavanda mofada. Nada de baratas nem de caras desenhados no chão. Quartinho

– Bacana! Gostei. Deve ter umas pedrinhas perdidas pelo chão.

– Porra, 429. Tira a fuça do chão e presta a atenção.

– E que porra foi aquela, hein, Linhares?

– Escuta!

– Cê nunca vem aqui, mas eu sou conhecido na região, e depois os cara vão pensar que eu tô escapando a quarta e

– ESCUTA CARALHO!

TOC TOC TOC!

– Tudo bem, aí dentro? Vou deixar as beras aqui na porta. Só não quebrem a porra do quarto!

Pelo menos o 429 fica quieto.

– Vamos fazer o seguinte. Desce no primeiro andar e dá uma vasculhada nos quartos. Eu faço isso aqui em cima.

– Tá, mas

– Pega meia caixa de cerveja e sai batendo nas portas dizendo que precisa entregar a cerveja. Sei lá. Improvisa, porra!

Ele fica me olhando meio desconfiado.

– Mas eu não tenho uma arma, nem nada, e se o cara ataca?

– Aí você grita e eu vou te salvar, baby.

A Jéssica explode em risos.

Nós também.

Mandamos um pouco do pó mágico pra melhorar a visão sobre as coisas e saímos do quarto. O Fórtiunaine desce as escadas e eu vou em direção ao primeiro quarto. Vazio. O segundo também. No terceiro escuto gemidos. Abro a porta como quem não quer nada.

– Boa noite. Serviço de quarto.

Tem um velho careca amarrado na cama com uma meia na boca e um travecão de um metro e noventa brincando de playground com o corpo dele. Muito legal a cena. O cara vem até a porta. Agradece. Pega as cervejas. Dá uma piscadinha com o olho direito e volta pra cama. Nem faz questão de fechar a porta. Abre uma latinha. Toma um gole e o resto vai derramando devagar no corpo do velho que começa a soltar uns gritinhos e

– Delegado Alvarenga! Quanto tempo?

O traveco dá um sorriso e faz um sinal com a mão pra que eu saia. Respeito o casal e vou saindo de fininho do quarto. Na mesma hora um grito estridente. Como se alguém estivesse enforcando um rato.

– É o 429.

Diz a Jéssica.

Ela pula pra minha mão e em menos de meio segundo chegamos lá em baixo. Encosto na paredes ao lado da porta escancarada de onde veio o grito.

– Não, não, por favor!

A voz do Fórtiunaine meio amassada como se a cara dele estivesse sendo esfregada no travesseiro. Boto a cara na porta e tem um cara arrancando a roupa dele.

– Merda!

Não é o Espalha Esperma.

CLÉC!

Engatilho a Jéssica. A cena congela de novo. Entro no quarto. Tiro o cara de cima do 429. Jogo o rato pra fora do quarto. O grandão me olha com cara de quem sabe que vai se fuder. Levo ele até o banheiro e meto a sua cara na quina da privada. O cara desmaia. Dou a descarga e largo o corpo lá. Tem uma moça caída no chão. Coloco ela em cima da cama e saio do quarto. Ela dá uns gritinhos gesticula diz que estamos fudidos e que o namorado dela é da polícia e que vamos se fuder e

PLAM!

Saio e fecho a porta. Tudo volta ao normal. O Fórtiunaine ainda está bastante assustado sentadinho do lado de fora tentando acender um cigarro.

– Espere aqui, man. Vou dar uma olhada no andar.

Mando mais um pouco do pó mágico pra enxergar melhor a situação. Tiro o chapéu. Seguro a Jéssica contra o peito. Fecho os olhos. Respiro fundo.

Cadê o safado?

Corredor à direita.

Venha por aqui.

Última porta

Uma placa escrito

Quarto 109

Abro os olhos.

– Quarto 109.

– Quarto 109?

– Quarto 109.

– O que tem no quarto 109?

Nessa hora eu conto pro Fórtiunaine o que acontece. Ele não acredita.

– Man, foi assim que eu peguei o safado.

Tem uma plaquinha com o número 109. Eu vejo que é o quarto onde o safado está querendo traçar a menina. Engatilho a Jéssica e meto o pé na porta. O cara está sentado vendo Atlético e Paranavaí na televisão. Ele toma uma bera enquanto uma moça que bate com a descrição chupa seu pau. Ela tem uma corda no pescoço. A ponta da corda está na outra mão dele. Na hora eu olho pra ela e sei que é a moça. E também sei que é o Espalha. Ele me vê e dá um pulo pro lado da cama. Na frente da janela que dá pra rua. Ele puxa um .38. Eu me jogo no chão. Do outro lado da cama. Perto da porta. A menina se joga na frente da cama. Perto da TV. Ele dá o primeiro tiro. Acerta a porta atrás de mim. A menina dá o primeiro berro. Corra pro banheiro. Eu digo. E ela corre. Ele dá o segundo tiro. Pega na parede em cima da escada do lado de fora do quarto. A Jéssica pede pra dar um tiro bem no meio da fuça dele. Quero ele vivo baby. A menina dá o segundo berro. Eu tenho um milésimo de segundo pra agir. Então vejo que a cama é fechada embaixo. Não tem aquele vão que dá pra se esconder quando é criança. Se eu atirar desse lado o projétil vai entrar na madeira e vai viajar os quase dois metros da cama e se tiver um pequeno desvio padrão vai perder um pouco de velocidade e vai aleijar o canalha. Vai acertar o joelho. E vai doer.

BAM!

Bem nessa hora o cara dá um terceiro tiro que passa zunindo minha orelha esquerda.

FLÓSH!

Acerto a coxa esquerda do cara. Ele dá um berrão e começa a levantar. Ele vai sair atirando feito louco. Diz a Jéssy. Pega ele antes que ele nos pegue. Ela continua. Ok. Concordo. Levanto do meu esconderijo. Ele aponta o .38 pra mim. Boto o pé direito na cama e pego impulso pra voar no pescoço do safado.

BAM!

BAM!

CLÉC!

CLÉC!

Ainda não sei se ele me acertou algum tiro. Ele termina de se levantar e vai se jogar pela janela. Atiro.

BAM!

Pega no parapeito da janela bem perto da perna direita do Esperma que começa o seu voo pra fora do quarto Pedro Ivo abaixo. Caio do meu pulo. Metade na cama. Metade no chão. Meio destrambelhado. A moça grita pela terceira vez. Olho pela janela e ele está estatelando lá embaixo. Grito pra você que desça correndo pelas escadas enquanto me jogo em cima do cara pela janela. Pulo como quem se joga do bungee jump sem corda. Enquanto caio penso em todas as bucetas que ele cauterizou e vejo no fundo dos olhos do canalha o profundo desprezo misturado ao medo e ao pavor do que ele sabia que estava pra acontecer. Miro bem no joelho do tiro.

CRASH!

Do primeiro andar a queda não foi muito alta. Foi suficiente pro joelho dele virar sagu. O berro foi ensurdecedor. A Jéssica ri. Você chega lá embaixo.

– E aí, Linhares, e a menina?

– Está trancada no banheiro ainda.

– Quer que eu veja lá?

– Veja lá, Fórtiunaine!

O Inércia na frente do Hotel. Enrolo o cara com silver tape. Jogo ele no porta malas. O 429 aparece com a menina.

– Eu cuido dela, Detetive.

O safado está desmaiado. Acho que foi de dor ou por ter perdido sangue demais. Não importa.

– E agora, man?

– Liga pro Tavares e diz pra ele vir aqui buscar a menina. Vou levar o rapaz pra uma entrevista com uns amigos meus.

Ligo o Inércia e saio em direção ao Parque Barigui. Vou direto até as churrasqueiras perto da entrada do Cemitério. O céu está limpo e frio. Um frio cinza e mórbido. Paro o carro. Puxo o corpo pra fora e vou mato adentro. Estrelas relampejam em meus olhos. Lua cheia. Entro no meio do mato com o corpo do Espalha Esperma. O cheiro de terra me agrada. Respiro fundo.

– Gosta do cheiro da terra, não é, Detetive?

– E aê, man, quanto tempo?

O Florestano sai detrás de uma árvore com mais alguns lobos que já esperavam por mim. Diversos pares de olhos em cima das árvores e atrás de arbustos. Como se fossem vagalumes acendendo aqui e acolá. Alguns amigos que fiz durante as caçadas noturnas por Curitiba. Animais sedentos por carne.

– Tá aí, Flores. Como prometido.

– Você fica pro jantar?

– Hoje, não. Preciso dormir.

– Hehe. É isso aí, man. Você está parecendo um zumbi.

– Mande notícias.

– Mando sim.

Viro pra ir embora. Dou alguns passos. O Florestano me chama.

– Man! Quase me esqueci. Olha só o que eu trouxe pra você!

Revista Lodo nº2

– Acho que você vai gostar.

Meu sorriso amarelo reluz com a luz da lua.

– Obrigado, man.

Os lobos começam a descer das árvores. Junto a revista debaixo do braço e vou saindo devagar. Mais a frente paro um pouco pra contemplar o barulho dos dentes daquelas criaturas rasgando a carne do safado. Os berros de agonia se espalham pelo Barigui.

Entro no Inércia e vou em direção ao escritório. Amanhece. Paro no Bar do Tony. Ele está abrindo a porta de ferro.

– Bom dia, Linhares.

– Bom dia, Tony. Se importa se eu me sentar prum café?

– De jeito nenhum. Faça o favor. Estou passando um fresquinho agora mesmo.

Pego o jornal. Na capa a chamada pra captura do Espalha Esperma. O Tony me serve o café. Emborco.

– Mais um café, Detetive?

– Não, Tony, obrigado. Vou dormir um pouco.

 

FIM